Combate às mudanças climáticas pode gerar inflação verde

A corrida por uma economia mais verde estimula a demanda de certas commodities. Mas, ao mesmo tempo, a regulamentação ambiental restringe a oferta. O resultado é uma “inflação verde”
Imagem de Nattanan Kanchanaprat por Pixabay

O mundo está diante de um paradoxo cada vez maior na campanha para conter as mudanças climáticas. Quanto maior é a pressão para a transição para uma economia mais verde, mais caro e menos provável se torna o esforço para atingir o objetivo de limitar os piores efeitos do aquecimento global.

Novos gastos governamentais diretos têm aumentado a demanda por materiais necessários para uma economia mais limpa. Ao mesmo tempo, o endurecimento regulatório limita a oferta ao desincentivar o investimento em minas, fundições ou qualquer tipo de fonte de emissão de carbono. O resultado não intencional é a “inflação verde”: alta dos preços de metais e minerais essenciais para a energia solar e eólica, carros elétricos e outras tecnologias para uso de fontes renováveis de energia.

Em ocasiões anteriores, a transição para uma nova fonte de energia deu impulso à antiga. A energia a vapor inspirou os fabricantes de veleiros a inovarem mais em 50 anos do que nos 300 anos anteriores. A eletricidade teve um impacto semelhante na iluminação a gás. Hoje, construir economias verdes consumirá mais petróleo no período de transição, mas não há uma reação na produção, porque a resistência política e regulatória lançou uma sombra sobre o futuro dos combustíveis fósseis.

Mesmo com a alta dos preços do petróleo, o investimento das grandes empresas de hidrocarbonetos e dos países continua a cair. Em vez disso, as potências petrolíferas se reinventam como potências de energia limpa. De 400 clientes institucionais de uma empresa, apenas um ainda estava disposto a investir em petróleo e gás. Mesmo no setor do xisto, dominado por operadores privados, os preços em alta têm provocado um aumento da oferta excepcionalmente fraco.

Dois dos metais mais importantes para a eletrificação verde são o cobre e o alumínio. Mas o investimento nesses metais também é limitado por questões ambientais, sociais e de governança (ESG). O mundo precisa de mais cobre para deter o aquecimento global, mas ambientalistas obstruíram uma nova mina no Alasca por causa do seu impacto nas comunidades locais e na sobrevivência do salmão.

ESG costumava ser um privilégio de países ricos. Não mais. Essas pressões afetam até mesmo a oferta da América Latina, que já foi o faroeste da mineração mundial. Quase 40% da oferta de cobre vem do Chile e do Peru, e nos dois países os novos empreendimentos, que costumavam demorar cinco anos para entrar em funcionamento, agora podem levar dez ou mais. Um grande projeto de cobre no Peru, previsto para 2011, continua inacabado por causa da resistência da comunidade local. Só neste ano o Chile adotou duas regras ambientais abrangentes e estuda cobrar um novo royalty que pode tornar algumas de suas maiores minas não lucrativas.

O papel da China como grande fornecedor de commodities também se reverteu. Há dez anos, o país tinha superprodução de matérias-primas, como aço, e despejava o excedente no mercado externo. Hoje, Pequim cortou a produção como parte da campanha para alcançar a neutralidade nas emissões de carbono. Quase 60% do alumínio vem da China, que impôs limites a novas fundições.

Certamente essa parecia ser a medida verde a ser tomada. O alumínio é um dos metais de produção mais suja. Mas é também um dos metais mais vitais para instalações de energia solar e verde em geral e, segundo o Banco Mundial, deve ter um forte aumento de demanda nas próximas décadas.

Nos anos 2000, analistas estavam otimistas a respeito dos preços das commodities por causa da demanda da China. Agora, o otimismo é por causa da crescente demanda de projetos verdes. A economia verde é a nova China.

Tecnologias para fontes renováveis de energia exigem mais conexões elétricas. As usinas de energia solar ou eólica usam até seis vezes mais cobre do que as convencionais. Nos últimos 18 meses, à medida que os governos anunciavam planos e promessas de gastos verdes, analistas elevavam suas estimativas de crescimento da demanda por cobre. Assim, a regulamentação verde estimula a demanda enquanto restringe a oferta, o que alimenta a “inflação verde”. O preço do cobre subiu mais de 100% desde o início de 2020, e o do alumínio, 75%. De forma inusitada, essa escalada praticamente não diminuiu com os sinais de redução do crescimento mundial.

Resolver esse quebra-cabeça – como fornecer material velho e sujo em quantidade suficiente para construir uma nova economia verde – exigirá equilíbrio. Impedir novas minas e plataformas de petróleo nem sempre será uma ação responsável ambiental e socialmente. Os governos, e os verdes, precisam reconhecer que tentar fechar a velha economia rápido demais ameaça empurrar o preço da construção de uma economia mais limpa para fora de alcance.

Ruchir Sharma é estrategista-chefe mundial do Morgan Stanley Investment Management e autor do livro “The Ten Rules of Successful Nations” (as 10 regras dos países bem-sucedidos).