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Como salvar uma economia que fica 30 dias parada

Imagem: Depositphotos Imagem: Depositphotos

A discussão sobre se devemos ou não ficar todos em casa já está ultrapassada à altura que escrevo. É consenso mundial que essa é a forma mais viável (se não a única, no momento) de se conter a rápida propagação do Covid-19. Essa restrição de circulação significa salvar a vida de dezenas de milhões de pessoas mundialmente.

Mas quais os impactos financeiros desse shutdown do mundo por 30 dias?

A primeira dúvida que fica é quanto ao prazo. Ainda é incerto se somente 30 dias serão suficientes, e cenários com inúmeros shutdowns já não são facilmente descartados.

A Inglaterra, por exemplo, trabalha com três cenários. O último e mais severo deles é o de uma série de várias quarentenas, que se estenderiam até o final de 2021.

Mas, mesmo no cenário de shutdown de 30 dias, os impactos sobre a economia serão devastadores.

Na indústria, conseguimos ver isso de forma mais fácil, já que as fábricas pararam. Mas esse setor não terá o maior impacto, já que as fábricas poderão fazer mais turnos de produção quando tudo estiver resolvido e recuperarem o período parado.

O maior impacto será no setor de serviços, cuja recuperação será mais difícil. Na hora em que a pandemia passar, ninguém vai jantar fora oito vezes por semana porque ficou 30 dias sem ir a um restaurante, por exemplo.

A má notícia é que a maioria das economias atuais são baseadas em exatamente no segmento de serviços (mais de 60% do PIB do Brasil vem desse setor).

Os efeitos em cadeia dessa dependência estão longe de serem ignoráveis. Não vamos nos enganar: até você, que é empregado com carteira assinada e está tranquilo de que vai receber seu salário no fim do mês, deve se preocupar. Há uma chance de a sua empresa (pequena, média ou gigante) falir e você não ter mais emprego em breve.

Um cenário cabuloso, mas que tem solução do ponto de vista econômico, por meio da impressão de dinheiro.
Fazendo a roda da economia girar

Isso mesmo. O Banco Central imprime dinheiro e o Tesouro Nacional se incumbe de distribuí-lo para as pessoas e as empresas. Quanto mais ampla essa distribuição, melhor.

O mecanismo funciona da seguinte forma: o Tesouro emite um título para o BC, que, por sua vez, o paga em dinheiro, dado que é função do Banco Central a emissão de moeda. O Tesouro gasta esse dinheiro, de maneira a salvar a economia de uma quebradeira geral.

Isso acontece, por exemplo, por meio do aumento significativo do valor do Bolsa Família, de linhas a fundo perdido para pequenos e médios empresários ou até mesmo pela remessa de um cheque pelo correio (alternativa que será testada nos EUA).

Ou seja, qualquer coisa que possa ser usada na economia e a faça girar. Esse dinheiro só não pode ser investido em títulos do governo.

Como os juros que o BC paga ao Tesouro estão muito baixos, em alguns casos até mesmo negativos, o valor que o Tesouro tem que devolver ao BC quando o título vence é quase o mesmo do momento em que ele pegou essa quantia.

Isso é uma ótima ajuda, já que, se os juros fossem altos, o Tesouro teria que aumentar consideravelmente os impostos para conseguir pagar essa dívida no futuro. Temos que lembrar também que, se o Tesouro distribuiu esse dinheiro, em algum momento esse valor terá que voltar, para que ele possa pagar sua dívida com o BC.

Esse mecanismo lembra o caso do Banespa financiando o governo de São Paulo. O banco contraia dívida no mercado e comprava títulos do governo de São Paulo, que, por sua vez, gastava o dinheiro.

A diferença aqui é que o Banespa não tinha capacidade de imprimir dinheiro e precisava ir ao mercado para captá-lo (por meio de dívida). E aí, com uma dívida crescente e o não pagamento do Estado (que, aliás, sempre pedia mais  dinheiro), a casa caiu.

No caso do Banco Central, porém, essa conta é diferente, já que ele tem a prerrogativa de criar dinheiro: ele pode imprimir reais.

Mas por que esse mecanismo é melhor do que o afrouxamento monetário (“quantitative easing”) que está sendo feito nos últimos anos?

No “quantitative easing”, o BC compra títulos já emitidos no mercado e imprime dinheiro em troca dele. Aqui, o que acontece é uma troca entre o BC e o mercado financeiro.

Por exemplo, imagine um banco que tenha alguns bilhões em títulos públicos na sua carteira. Então, essa instituição vende os títulos para o BC, que em dá troca dinheiro para ela. O banco fica com esse dinheiro para fazer o que quiser.

Nos últimos anos, o principal destino que os bancos fizeram para esse dinheiro foi aumentar a liquidez. Se o banco não fizer o dinheiro girar (e eles não o fizeram), essa atuação do BC somente aumentará a solidez do mercado financeiro.

Além disso, esta estratégia não aumenta a dívida do governo. É uma operação de troca de ativos. No caso do título emitido para o BC, há um aumento da dívida do governo e uma monetização dessa dívida (troca de dívida por dinheiro).

Outro ponto importante é que o Tesouro pode distribuir esse dinheiro de uma forma mais universal, atingindo pessoas com maior propensão marginal a consumir. Isso ajuda a economia a se recuperar, ou, no caso, a não colapsar.

O tamanho da conta
A pergunta que você deve estar se fazendo agora é: qual o limite para fazer se fazer isso? O Tesouro pode emitir o que quiser e o BC comprar pode comprar o que quiser?

Do ponto de vista econômico, é importante ressaltar que essa divisão de funções entre o BC e o Tesouro se faz exatamente para que isso não aconteça, ou que tenha algum limite, ao menos. Se fosse tudo a mesma coisa, o Tesouro sempre teria a tendência a emitir moeda para pagar suas dívidas e isso levaria a economia a uma situação de grande inflação e instabilidade.

Dito isso, neste momento fico com a esplêndida resposta de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, que disse que na guerra não há limites para isso. Que se aumente a dívida, se imprima o dinheiro e se resolva a guerra. Tudo dando certo, esse problema da dívida fica para ser resolvido depois.

Colocando em números, a única estimativa crível que vi até agora das perdas é da Bridgewater (maior hedge fund do mundo), que fala de um impacto mundial de aproximadamente US$ 12 trilhões.

Se for esse o número, é por volta disso que terá que ser impresso para que a economia não colapse. Apenas como referência, o PIB americano, o maior do mundo, é de US$ 21 trilhões.

Ah, e como se resolve isso no futuro? Na teoria, por meio da inflação. Ela existe, todos sabemos, mas hoje está mais difícil de encontrar que cabeça de bacalhau. Assunto para um próximo artigo.

fonte: InfoMoney, escrita por Gustavo Cunha

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