Um perigo oculto à vista de todos

Toda construção, não importa qual seu uso ou tamanho, usa condutores elétricos. Segundo o Ministério das Minas e Energia, 40% do consumo atual de energia elétrica no Brasil estão concentrados em instalações prediais, ou seja, nos lugares que vivemos ou frequentamos.

Essa demanda por energia faz com que o mercado de condutores elétricos que atende residências, comércio, pequenas indústrias, varejo etc. fature R$ 6,16 bilhões anualmente e empregue aproximadamente 25,1 mil pessoas. É uma cifra que atrai atenções e, infelizmente, más práticas.

A não conformidade nesse segmento de média e baixa tensões, que para os mais leigos é de um produto simples – “o fio elétrico comprado na loja para construir ou reformar” – tem despertado nossa preocupação para um perigo que está invadindo milhares ou milhões de residências e estabelecimentos.

Todo condutor elétrico tem como base o cobre, uma commodity cara e em franca valorização – o contrato da tonelada de cobre futuro passou de 6 mil dólares para mais de 9 mil dólares em um ano e meio.

Para conseguirem preços ou margens melhores, empresas desrespeitam as normas da ABNT e a regulação de conformidade do Inmetro colocando menos metal do que o necessário para a resistência anunciada, completando o diâmetro no encapamento de borracha – assim, o consumidor não percebe diferença na seção do fio.

Fraude difícil de ser percebida, esse produto leva um risco enorme para dentro dos lares brasileiros – do superaquecimento e incêndio.

Sempre que um aparelho que consome maior carga de energia, como aquecedores, aparelhos de ar-condicionado, chuveiros, entre outros, está ligado à rede por um condutor desse, o risco é grande. A menor quantidade de cobre faz com que grande parte da energia se transforme em calor ao longo desse condutor.

Estudos da Associação Brasileira pela Qualidade dos Fios e Cabos Elétricos – Qualifio, uma entidade sem fins lucrativos, mostram que o desvio médio da resistência elétrica dos condutores que não atendem aos padrões estabelecidos é de 30%. Ou seja, um terço da energia elétrica escapa como calor devido ao chamado efeito Joule.

São diversas as consequências desse número; as estruturais e econômicas são mais fáceis de calcular. Chegamos à constatação de que impressionantes 32.700 GWh, ou 7% do consumo total de energia do Brasil, se perdem nesses fios. Essa conta chega aos R$ 8 bilhões de desperdício – isso, em uma infraestrutura de fornecimento de energia em momento crítico por conta da seca e baixo nível das hidrelétricas.

Além do valor monetário, há o grande risco para a vida de brasileiros em todo o País. Desde que o sindicato da indústrias do setor se alinhou a instituições como Ministério Público, IPEM e órgãos de defesa do consumidor, mais de 66 mil rolos de fios, além de dezenas de bobinas, foram apreendidos em 11 estados.

Somente nos primeiros seis meses de 2021, mais de 550 quilômetros de fios não conformes foram confiscados em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Essa atuação já resultou em 36 ações judiciais e seis prisões.

Para se ter uma noção de tamanho desse mercado paralelo e ilegal, o Brasil conta com 156 fabricantes certificados pelas regras do INMETRO, mas já foram constatados 116 produtores com condutores fora das especificações, o que resultou em 70% de produtos testados com resistência elétrica acima da especificação (quanto maior a resistência, menos facilidade a corrente tem para passar, gerando o calor).

Mesmo os fios com selo INMETRO em lojas e depósitos não são garantia de segurança aos consumidores, pois há empresas que aprovam seus fios, recebem o selo para depois reduzirem o diâmetro do cobre.

O Brasil registrou em 2020 mais de 500 incêndios e 25 mortes decorrentes de sobrecarga elétrica (fonte: Anuário ABRACOPEL – Associação Brasileira para Conscientização para os Perigos da Eletricidade). É possível afirmar que a grande maioria é decorrente da soma de condutores não conformes com mão de obra sem qualificação.

Se foram apreendidos 66 mil rolos de fios, sendo que as apreensões só podem ser feitas sob denúncia, imagine-se o volume de condutores inseguros instalados Brasil afora?

É por isso que dizemos que se trata de um perigo gigantesco escondido à vista de todos. É um risco, e um desperdício, que precisa ser combatido com fiscalização rígida, padronização e comprometimento sério de todos os participantes do mercado com o fim desse comércio criminoso.

*Enio Rodrigues é diretor executivo do Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não-Ferrosos do Estado de São Paulo