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FT: Inteligência artificial é a nova aposta da mineração

Apoiada por Bill Gates, a startup Kobold estima que mais de US$ 10 trilhões em lítio, cobalto, níquel e cobre precisam ser minerados para atender a demanda de carros elétricos
Kobold Metals usa inteligência artificial e aprendizado de máquina para encontrar novos depósitos de metais fundamentais para a produção de baterias e energia limpa. – Foto: Jens Kalaene/Newscom

Um grupo de investidores está apostando que a indústria mundial de mineração, que movimenta US$ 1,6 trilhão por ano, passará pelo mesmo tipo de ruptura digital que sacudiu os setores da mídia, música e automobilístico.

T Rowe Price, Bond Capital e uma dezena de outros investidores captaram US$ 192 milhões para uma “startup” apoiada por Bill Gates chamada Kobold Metals, que usa a inteligência artificial e o aprendizado de máquina para encontrar novos depósitos de metais fundamentais para a produção de baterias e energia limpa.

Isso acontece no momento em que se espera um aumento da demanda por metais usados em baterias, como o lítio e o níquel, à medida que os carros elétricos se tornarem populares nas próximas duas décadas.

A Kobold, localizada no Vale do Silício, estima que mais de US$ 10 trilhões em lítio, cobalto, níquel e cobre precisam ser minerados para atender a demanda futura por veículos elétricos – um número que fará com que cada vez mais companhias mineradoras tradicionais recorram à inteligência artificial (IA) para ajudá-las nesse desafio.

A BHP, maior mineradora do mundo, e a Equinor, uma empresa de energia apoiada pelo governo da Noruega, já firmaram parcerias com a Kobold e seus braços de capital de risco são ambos investidores.

Em uma entrevista ao “Financial Times”, Kurt House, presidente executivo da Kobold, disse que as descobertas de mineração estão ficando mais lentas e mais caras com o tempo, num reflexo do que ele chamou de Lei de Eroom – o oposto de Lei de Moore [A Lei de Moore determina que a capacidade de armazenagem dos microchips dobra a cada ano, ou ano em meio].

“Nos últimos 30 anos, o número de descobertas por dólar de capital de exploração caiu seis vezes”, disse ele. “Portanto, se você aumentou seus orçamentos em seis vezes, vai encontrar coisas na mesma velocidade que encontrou em 1990.”

Os locais de fácil exploração, em que os minerais podem ser vistos da superfície, já foram em grande parte descobertos, enquanto que a exploração de minerais mais difíceis de serem encontrados sofre de uma insuficiência crônica de recursos.

Por exemplo, a BHP distribuiu US$ 15 bilhões em dividendos no ano passado, mas gastou apenas US$ 75 milhões com exploração.

Nomeada com a palavra alemã para um gnomo que controla os minerais da Terra, a Kobold já era apoiada pelo fundo Breakthrough Energy Ventures de Andreessen Horowitz e Bill Gates.

Sua rodada de financiamento mais recente aconteceu depois que a startup conseguiu demonstrar que sua tecnologia previu com sucesso a composição de um leito rochoso no norte de Quebec, encontrando minerais valiosos numa área que havia sido descartada pelas abordagens tradicionais como “sem potencial”.

A Kobold recolhe um grande número de dados científicos e históricos e usa algoritmos para identificar onde os depósitos minerais podem estar abaixo da superfície terrestre.

Sua tecnologia inclui ferramentas de aprendizado de máquina para filtrar 20 milhões de páginas de documentos de domínio público – incluindo dois séculos de acordos de direitos de mineração em inúmeras jurisdições – que ela classifica, digitaliza e transforma em informações acessíveis.

House diz que a maior parte desses “dados obscuros” foi esquecida ou não utilizada. Sua equipe contratou alguém para vasculhar arquivos do Estado em Zâmbia, onde foram encontrados mapas de linho pintados à mão, da década de 1920, cobrindo todo o país e descrevendo a terra e todos os afloramentos.

“Digitalizamos tudo e agora podemos ver os dados através de satélites espectrais. Temos dezenas de exemplos como esse”, afirma House.

Esses métodos estão ajudando a Kobold a construir um “Google Maps” da crosta terrestre, continua House. Uma vez que a companhia tem uma noção de locais onde minerais valiosos foram negligenciados, ela envia equipes para recolher mais informações.

No norte de Quebec, uma equipe de seis pessoas recolheu informações e amostras de rochas em 839 locais ao longo de 142 quilômetros de passagens. A exploração incluiu 12 semanas usando um helicóptero equipado com um enorme detector de metal – de 35 metros de diâmetro e 770 quilos – que envia pulsos eletromagnéticos por 500 metros abaixo da superfície em busca de minerais.

De certa forma, a Kobold é um jogo imobiliário sofisticado. Uma vez feito o trabalho, ele compra os direitos de mineração e firma parcerias com grandes grupos mineradores para dividir as receitas. No norte de Quebec ela adquiriu os direitos sobre quase 80.000 hectares de terras.

Mas o trabalho nem sempre resulta em lucros garantidos. Mesmo depois de meses de trabalho em um local, ainda há uma “chance razoável” de que nenhum mineral possa ser explorado com lucro. House diz que em Quebec, por exemplo, “o valor em potencial dos minerais existentes no local vai de zero a muitos bilhões”.

“Nossa meta é uma taxa de sucesso de 20% – isso é muito melhor que a prática padrão”, diz House.

Connie Chan, uma sócia de Andreessen que apoiou duas rodadas de financiamento da Kobold, diz que os pontos que provam seus métodos a convenceram de que a mineração está “madura” para a ruptura digital, especialmente devido à necessidade de novas descobertas para tornar a produção de veículos elétricos uma realidade.

“Esses não são metais raros”, observa ela, referindo-se ao lítio, níquel, cobalto e cobre. “O louco é que o cobalto é tão comum quanto o estanho, mas até a Tesla entrar em cena não precisávamos muito dele, de modo que ninguém o incentivou financeiro para explorá-lo.”